sábado, 29 de março de 2014

O desafio final da literatura jovem

"Divergente" é mais um filme de ação baseado numa saga juvenil, gênero que conquistou o mundo – e começa a entrar em decadência



ADIANTADA
A americana Veronica Roth (abaixo) assinou o contrato para adaptar a saga Divergente para o cinema antes da publicação do primeiro volume. O último volume, Convergente, sai agora no Brasil (Foto: Jaap Buitendijk)


Em 2010, Veronica Roth tinha 21 anos e cursava o último ano da faculdade de letras na Northwestern University, de Chicago, quando assinou um contrato milionário com a editora HarperCollins, para publicar e adaptar para o cinema um romance que  ela ainda escrevia. “Foi chocante”, afirma Veronica. “Eu disse: ‘Vocês querem fazer isso com este livro?’. Mas vocês não sabem nem mesmo como ele vai terminar!” Nem precisava. O que Veronica produzira durante um curso de escrita criativa bastava para o agente literário encaminhar com confiança os originais – e obter a resposta imediata de um mercado sedento por produtos daquele tipo, que logo ganhariam um nicho de sucesso garantido, a literatura adulta jovem (Young Adult, ou YA), destinada ao público de faixa etária entre 15 e 25 anos. Tratava-se do primeiro volume inacabado de uma trilogia que tinha tudo para se tornar um megassucesso literário e cinematográfico: uma história ambientada no futuro sobre uma jovem, Beatrice “Tris” Prior, que se rebela contra uma sociedade controladora e hiperorganizada.
O primeiro romance, Divergente, forneceu o título à saga adolescente futurista e agourenta. Ele chegou às livrarias americanas em abril de 2011, com direito a uma enorme campanha promocional. Na semana de lançamento, o livro atingiu o sexto lugar da lista de livros mais vendidos do jornal The New York Times e se manteve nas primeiras posições por seis meses. Era o auge do sucesso de outras “sagas adultas jovens”, como Crepúsculo (2006-2008), de Stephenie Meyer, e Jogos vorazes (2008), de Suzanne Collins. Veronica foi então comparada às duas autoras que vendiam milhões de exemplares com seus romances seriados – e no caso de Stephenie atraía milhões de fãs ao cinema, com a adaptação da saga Crepúsculo, que estreara três anos antes, em 2008. Jogos vorazes chegou aos cinemas em 2012. Ambos foram sucessos de bilheteria.
Foto: Annie I. Bang/AP
Foto: Annie I. Bang/AP
Veronica seguiu as pegadas das colegas mais velhas. O segundo e o terceiro volumes de Divergente – Insurgente Convergente – viraram best-sellers nos Estados Unidos em 2012 e 2013, respectivamente. Boa parte do sucesso se deveu, segundo Veronica, às redes sociais e a centenas de blogs dedicados à saga espalhados pelo mundo – até no Brasil. A trilogia vendeu 10 milhões de exemplares nos Estados Unidos e foi lançada em 15 países. Os dois primeiros volumes atingiram 100 mil exemplares vendidos no Brasil. Agora, a saga estreia nos cinemas americanos, ao mesmo tempo que o último volume, Convergente (editora Rocco, 528 páginas, R$ 39,50, tradução de Lucas Petersen), sai em versão brasileira, com tiragem de 30 mil exemplares. O longa-metragem Divergente, dirigido por Neil Burger (de O ilusionista) e estrelado por Shailene Woodley (como Tris), está programado para entrar em cartaz no Brasil em 17 de abril.
O êxito da trilogia transformou Veronica em celebridade aos 25 anos. Ela nasceu em Nova York, cresceu em Hong Kong e na Alemanha e hoje mora em Chicago com o marido, o fotógrafo Nelson Fitch. Já não consegue andar pelas ruas. Sua presença é sempre notada, até porque é bonita e imponente com seu 1,82 metro de altura. Ela é a maior divulgadora da própria obra, pois mantém atualizados um blog, um Twitter e fan pages no Facebook. Ela prepara para julho um volume em e-book de contos em torno de Divergente, sob o ponto de vista do personagem Quatro, namorado de Tris. “No começo, achei difícil entregar minha obra para adaptação”, diz. “A partir do segundo volume, ela deixa de ser sua. Pertence ao leitor.”
O leitor se apossou facilmente do fenômeno. Para o estudante Claudio Silva do Carmo, de 16 anos, um dos responsáveis pelo blog e fã-clube Sagas Brasil, que abriga todos os tipos de séries de livros e filmes para jovens, o sucesso de Divergente se deve à base sólida dos fãs de fantasia, que começaram a gostar do gênero por causa da série Harry Potter, de J.K. Rowling. “Nosso objetivo é fugir do mundo real e nos transformarmos em mil mundos”, diz. “De bruxos, distópico ou qualquer outro onde possamos viver aventuras ou até mesmo nos emocionar.”
Divergente observa o modelo de estrelato iniciado com a série Harry Potter: a combinação de histórias seriadas, lançadas em vários volumes para alimentar a expectativa do público e, em seguida, repetir o ciclo no cinema, com direito a uma extensão e à participação das autoras como consultoras do filme. No caso de Harry Potter, os sete romances viraram oito filmes. Os leitores acostumados a acompanhar Potter logo abraçaram as sagas jovens. A tetralogia Crepúsculo foi filmada em cinco longas-metragens. A trilogia Jogos vorazes chegará a quatro partes no final de 2015. O mesmo deverá ocorrer com Divergente, embora Veronica não confirme: “Mesmo que estejam fazendo esse tipo de plano, fico na posição de espera para ver no que vai dar”.
Quanto ao conteúdo, as sagas jovens também são regidas pela repetição e saturação (leia no quadro abaixo). Segundo João Luis Ceccantini, especialista em literatura infantil e juvenil da Universidade Estadual Paulista (Unesp), as sagas começam bem para cair na monotonia. “O primeiro livro é mais interessante, depois os outros ficam repetitivos”, afirma. “O autor tem uma boa ideia, mas a indústria cultural quer estender o material ao máximo. Ao transformar a literatura numa fórmula, a qualidade acaba diluída.” Para Ceccantini, acontecem repetições flagrantes de saga para saga. “Todas as histórias têm narrativas lineares, seguem uma linguagem muito direta e fazem uso do personagem adolescente arquetípico – com tom heroico, mas também características transgressoras.”
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Esse tipo de trama busca envolver os adolescentes em desafios e dilemas típicos da idade: escolhas profissionais, iniciação sexual, atitudes a assumir diante da família e da vida nova na idade adulta. É diferente do romance juvenil às antigas, ingênuo e voltado para aventuras e lições rudimentares de moral. As sagas jovens abordam questões políticas e existenciais. É o caso de Tris Prior, de Divergente. Aos 16 anos, ela descobre num teste vocacional que não se enquadra em nenhuma das cinco facções em que a sociedade totalitária em que vive se divide: Abnegação, Amizade, Audácia, Erudição ou Franqueza. A divisão resultou de uma decisão governamental de eliminar a luta de classes. A única luta possível é das virtudes. Tris, como qualquer adolescente atual, se vê jogada ao mundo, tem de tomar decisões que marcarão sua vida, mesmo sem estar equipada para o desafio. Exatamente como Katniss Everdeen, de Jogos vorazes. A semelhança não passa de uma coincidência, segundo Veronica, já que ela diz que pensou em sua história sem considerar a de Suzanne Collins. “Se querem comparar com Jogos vorazes, tanto melhor, porque é uma história incrível”, afirma Veronica. “Mas não acredito que o fenômeno se repetirá com Divergente, já que Jogos vorazes era algo inesperado.”
As perspectivas de sucesso para Divergente no cinema são pouco otimistas. Os números das adaptações para o cinema dos últimos dois anos de romances jovens adultos mostram que a tendência é o esgotamento do gênero (leia no quadro abaixo). “A cobrança pelo sucesso é dolorosa e injusta”, disse a produtora Lucy Fisher à revistaEntertainment Weekly. “Recebemos ligações de colegas  que trabalham com material jovem adulto, que dizem: ‘É melhor vocês não ferrarem com a gente’. Se não fizermos sucesso, será terrível para o gênero, ainda que nossa pretensão seja apenas fazer um bom filme, que fuja dos lugares-comuns e das etiquetas”.
Divergente fornece material para a especulação sobre o fim do ciclo de sucesso da literatura jovem adulta. Talvez a saga seja o canto do cisne desse tipo de história. Os chavões que Divergente traz se repetiram tanto nos últimos tempos, que os fãs podem ver tudo como algo que nada tem a ver com eles: em vez do escapismo, a previsibilidade.
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Luís Antônio  Giron e Nina Finco, na Época

4 comentários:

Livreando disse...

É certo que alguns gêneros com o tempo ficam saturados, entram em um tempo de pausa e retornam, assim como acontece com livros eróticos ou com temas de vampiros e bruxos, e caso aconteça com a categoria YA, provavelmente provavelmente será da mesma forma. Também não acho que qualquer pesquisa deva ser levada como uma verdade absoluta, até porque no que se diz ao índice de leitores que leem e assistem as adaptações desse gênero, os dados são colhidos exclusivamente da massa norte americana e não dos leitores em sua totalidade. Mas amei o post informativo.

Bjim!!!

Tammy - Livreando

Livreando disse...
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Livreando disse...
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Carolina Ribeiro disse...

É verdade que essa explosão de apenas um único gênero acaba "enjoando" alguns leitores (outros não abrem mão de jeito nenhum!), mas eu sinceramente me atenho à história, se é boa ou ruim. E não suporto as comparações de sagas, como foi o caso de Divergente com Jogos Vorazes. Acho que cada um tem seu perfil.
Eu gostei bastante da série Divergente, achei criativo e tudo mais, e gosto também do gênero YA, mas confesso que às vezes toda esse "glamour" acaba nos esgotando.

http://carolinaribeirobr.blogspot.com.br/?view=classic